domingo, 21 de outubro de 2012

Teoria fundamentada



Introdução

A ciência tem a função de compreender e explicar, mesmo que provisoriamente, os fenômenos sociais e naturais, centrando-se em questões particulares e buscando desafiar crenças convencionais. Para tanto, utiliza metodologias quantitativas e ou qualitativas para focalizar e conhecer esses fenômenos (MAY, 2004).

As metodologias quantitativas para descrever e explicar fenômenos ainda são freqüentemente usadas nas pesquisas sociais. De inspiração positivista, partem do princípio de que se deve empregar a mesma metodologia instrumental das ciências naturais. Seguem um plano estabelecido com o máximo de rigor, visando verificar uma teoria com a utilização de procedimentos de quantificação de tal forma que a influência do pesquisador pode ser excluída. As metodologias quantitativas, nas ciências sociais, têm sido criticadas por reduzir as relações e fenômenos sociais e humanos a dados estatísticos.

Simplicidade, estabilidade e objetividade, entendidos por Vasconcellos (2003) como elementos do paradigma tradicional da ciência, são questionados quando as diferenças entre a pesquisa social e as ciências naturais são reconhecidas, uma vez que os pesquisadores podem interagir com aqueles que estudam. Afinal,

diferentemente dos objetos na natureza, os homens são seres autoconscientes, que conferem sentido e propósitos ao que fazem. Sequer podemos descrever a vida social de modo acurado a menos que antes, apreendemos os conceitos que as pessoas aplicam a seus comportamentos (GIDDENS, 1997, p.12-13).

Assim, outro tipo promissor de investigação, de natureza qualitativa, tem sido utilizado para compreender o problema e fatores subjacentes ao objeto pesquisado, mediante estudos de pequenas amostras (MALHOTRA, 2001) e a atribuição de sentido pelos próprios sujeitos.
A pesquisa qualitativa baseia-se em várias abordagens teóricas resultantes de diferentes linhas de desenvolvimento e considera a subjetividade dos pesquisadores e sujeitos estudados parte integrante do processo investigativo. Dessa forma, as reflexões, observações, impressões e sentimentos dos pesquisadores tornam-se dados, constituindo parte da interpretação (FLICK, 2004).

Em geral, essas abordagens podem ser sintetizadas em três posturas referentes à forma de compreensão do objeto de estudo e foco metodológico: a tradição do interacionismo simbólico, que estuda os significados atribuídos às atividades e ambientes pelos indivíduos; a etnometodologia, que trata da elaboração das realidades sociais; e as posturas estruturalistas ou psicanalíticas, que partem de processos do inconsciente psicológico ou social (FLICK, 2004).

Entre as várias abordagens e métodos qualitativos de pesquisa, pretende-se, neste estudo, apresentar uma visão geral das origens, propósitos, fases, procedimentos, critérios para avaliação e limitações da metodologia denominada Teoria Fundamentada (Grounded Theory). Acredita-se que ela possa ser adaptada a estudos de diversos fenômenos, em especial, os de natureza exploratória e indutiva para o desenvolvimento de teorias “conceitualmente densas”, ou seja, com muitas relações conceituais (GLASER; STRAUSS, 1967, p.31-32). As teorias são construídas mediante procedimentos específicos que a tornam eficazes e influentes. Assim sendo, espera-se que o texto contribua para esclarecer e auxiliar os pesquisadores que pretendem conhecer melhor ou utilizar a metodologia.

Teoria Fundamentada (Grounded Theory)

A Teoria Fundamentada pode ser compreendida como uma metodologia de natureza exploratória que enfatiza a geração e o desenvolvimento de teorias que especificam o fenômeno[1] e as condições para a sua manifestação. Um aspecto central desta abordagem analítica é ser “um método geral de análise comparativa [constante]” (GLASSER; STRAUSS, 1967, p.viii); daí ser freqüentemente citada como método comparativo constante.

A Teoria Fundamentada foi desenvolvida originalmente pelos sociólogos Glaser e Strauss e publicada no livro “The Discovery Of Grounded Theory: Strategies for Qualitative Research” (1967) com três objetivos definidos. O primeiro, proporcionar uma base lógica para a teoria com a intenção de contribuir para “fechar a lacuna entre teoria e pesquisa empírica” (p.vii). O segundo, propor padrões e procedimentos mais adequados para descoberta da teoria. E por último, validar a pesquisa qualitativa como método adequado e específico designado para gerar uma teoria.

Outros três livros foram escritos sobre a teoria. O segundo, “Theoretical Sensivity” (GLASER, 1978), o terceiro, “Qualitative Analysis for Social Scientists” (STRAUSS, 1987) para pesquisadores mais experientes, e o quarto, “Basics Of Qualitative Research: Grounded Theory Procedures And Techiniques” (STRAUSS; CORBIN, 1990). Essa última  obra, que discute os procedimentos e técnicas em detalhes e passo a passo, recebeu críticas severas de Glaser ao considerar que Strauss e Corbin traíram as idéias originais da teoria ao enfatizarem:
 (1) Preconcepções ao invés de uma abordagem aberta imparcial; (2) a geração de categorias de análises intensivas de um único incidente, mais do que comparações constantes de incidentes; (3) verificação ao invés de geração; (4) regras no processo de pesquisa ao invés da emergência livre da teoria dos dados (ALVESSON; SKÖLDBERG, 2000).


Essa visão decorre de descrição do próprio Glaser que, ao se intitular de ‘ortodoxo’, rotula Strauss de ‘revisionista’. A respeito dessa questão, Strauss e Corbin (1990), no prefácio de seu livro “Basics Of Qualitative Research”, esclarecem que o leitor encontrará algumas terminologias e procedimentos diferentes entre as referidas obras. Argumentam que o fato se deve às reflexões sobre as diversas experiências adquiridas no ensino e em projetos de pesquisas específicos. Não obstante, asseguram que todos os trabalhos que escreveram sobre o assunto expressam posições idênticas para a análise qualitativa e sugerem os mesmos procedimentos básicos.

Muitos pesquisadores classificam a Teoria Fundamentada como qualitativa. Isso parece se derivar da constatação de que o foco metodológico é fortemente orientado para os dados qualitativos. Além disso, a ênfase dada ao subtítulo do primeiro livro publicado, Estratégias Para Pesquisa Qualitativa, e as publicações subseqüentes, em que os autores evidenciam que escreveram especificamente para pesquisadores qualitativos, reforçam o fato. Ressalte-se, todavia, que a Teoria Fundamentada é uma metodologia geral, aplicável tanto a estudos qualitativos quanto a quantitativos. Nesse sentido, Glaser e Strauss afirmam acreditar que “toda forma de dados é útil tanto para a verificação quanto para a geração de teorias, qualquer que seja a ênfase (...) ”. Esta depende das circunstâncias de pesquisa, dos interesses e treinamento do pesquisador e dos tipos de materiais necessários para a teoria (GLASER; STRAUSS, 1967, p. 17-18).

            A Teoria Fundamentada tem sido utilizada em várias áreas do conhecimento. Para o mapeamento não exaustivo das pesquisas que empregaram a Teoria Fundamentada, foram realizadas buscas no Google Acadêmico, banco de teses e dissertações da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), banco de dados do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) e na base Lisa (Library Information Scientific Abstratcts). No Brasil, a metodologia é utilizada predominantemente na área de enfermagem da qual se originou (Santos, 1997; Oliveira, 1998; Lacerda e Oliniski, 2004; Mussi 2004; Abuchaim, 2005). Na área de ciências humanas, foram encontrados trabalhos na psicologia (Silva, 1998; Tannous, 2005) e na educação (Nunes, 2001; Yunes, 2001). Nas ciências sociais, foram encontradas pesquisas na administração (Verle, 1999; Alperstedt, 2001; Santos, 2005); comunicação (Fossati, 1998) e na ciência da informação (Simões, 1997; Caregnato, 2000; Soares, 2003; Thomaz, 2005). Embora seja uma abordagem relativamente nova no Brasil, verifica-se um aumento considerável do uso da metodologia a partir de 2000.

            A Teoria Fundamentada originou-se de duas linhas de pensamento referentes às posturas filosóficas e à formação dos dois sociólogos:  Anselm Strauss, do interacionismo simbólico[2], e Barney Glaser,  estatística positivista. O primeiro, oriundo da universidade de Chicago com longa tradição de pesquisa qualitativa, é admirador das idéias de Robert E. Park, W. I. Thomas, John Dewey, G. H. Mead, Everett Hughes e Hebert Blumer, inspirando-se no interacionismo e no pragmatismo. O segundo, da Universidade de Columbia, foi influenciado por Paul Lazarfelds, conhecido como inovador dos métodos quantitativos (STRAUSS; CORBIN, 1990).

Para Alvesson e Sköldberg (2000), o interacionismo simbólico foi a fonte de inspiração mais importante para a construção da Teoria Fundamentada, contribuindo com alguns elementos, como:

● Pragmatismo: doutrina, segundo Pierce, que identifica a concepção de um objeto à de seus efeitos possíveis, isto é, possui caráter funcionalista. Para os pragmáticos saber o significado do fogo ou gravitação é saber quais são os efeitos que produzem e para que servem. Uma idéia sempre deve ser submetida à experimentação para determinar o seu valor. Nesse sentido, a verdade é uma hipótese que passou pela experimentação (COMTE-SPONVILLE, 2003).

● maior utilização de métodos qualitativos do que quantitativos;

● exploração: função central nas ciências sociais em que o uso de um método flexível de coleta de dados, no qual, os princípios de seleção permitem que os conceitos descobertos preliminarmente sejam sucessivamente revisados e complementados durante o processo de pesquisa;

● conceitos sensibilizantes: favorecimento da criação de conceitos que estimulam a percepção de novas relações, perspectivas e pontos de vistas, ao invés da criação de técnicas que proporcionam mais exatidão;

● ação social: o foco principal é um micro processo em que há interação entre dois atores por meio dos símbolos a serem compreendidos por eles;

● símbolos cognitivos: as pessoas criam e recriam continuamente em contato com os outros atores. Esse elemento aborda a idéia de representação em que a mente é compreendida em oposição à metáfora da caixa preta como na perspectiva behaviorista tradicional, ou seja, a mente atua como uma processadora de significados. uma crítica recorrente a essa perspectiva é que os elementos emocionais são subestimados em detrimento do cognitivo;

● orientação para os dados empíricos e indução sucessiva: pesquisadores deveriam iniciar indutivamente das interações simbólicas do cotidiano e não se distanciarem muito delas.

Apesar da forte influência do interacionismo simbólico, ele não foi a única fonte de inspiração para a Teoria Fundamentada. Glaser usou como modelo o método de análise estatística na concepção da Teoria Fundamentada, integrando a forma positivista com a qualitativa. Por conseguinte, o positivismo estatístico, herdado do programa de pesquisa de Lazersfelds, em que os dados constituem o princípio e o fim do processo científico, proporciona uma abordagem mais rigorosa (ALVESSON, SKÖLDBERG, 2000).
                                                                                     
            Na Teoria Fundamentada, os conceitos[3] emergentes dos dados empíricos são blocos fundamentais da construção da teoria, cujo foco se centra na descoberta por meio de uma metodologia flexível e, ao mesmo tempo, conforme afirmam Strauss e Corbin (1990), significativa, generalizável, reproduzível, precisa, rigorosa e verificável, critérios necessários a uma ‘boa’ pesquisa.

Glaser e Strauss (1967) argumentam que existem crenças de que a aplicação das teorias formais fornecerá os conceitos e hipóteses necessárias à explicação do fenômeno. Nesse caso, a tendência é que o pesquisador tente ajustar os dados aos pressupostos teóricos, deixando de observar, muitas vezes, conceitos e hipóteses que possam surgir. Em contraposição, na Teoria Fundamentada, o pesquisador construirá uma teoria a partir da observação específica do fenômeno e não pela aplicação de uma teoria pré-estabelecida para explicá-lo. O propósito é desenvolver uma teoria e não meramente descrever um fenômeno.

Portanto, a abordagem da Teoria Fundamentada não parte de um modelo baseado em conhecimentos teóricos, mas focaliza os dados e o campo em estudo. As suposições teóricas são descobertas e formuladas ao se lidar com o campo (FLICK, 2000, p.58), como elucidam Strauss e Corbin:

Uma Teoria Fundamentada é aquela derivada indutivamente do estudo do fenômeno que representa. Isto é, ele é descoberto, desenvolvido, e provisoriamente verificado por meio de sistemática coleta e análise de dados. Portanto, a coleta de dados, análise e teoria possuem relação recíproca entre si. Não se começa com uma teoria para prová-la.  Começa-se com uma área de estudo em que se permite a emersão do que é relevante (1990, p.23).

O modelo do processo de pesquisa na Teoria Fundamentada, diferente da seqüência linear dos métodos quantitativos, apresenta uma interdependência e encadeamento circular das partes em que as atividades ocorrem simultaneamente. Nesse processo, incluem-se três etapas principais — a amostragem teórica, a codificação e a redação da teoria — que serão tratadas a seguir.

         Amostragem teórica
            A amostragem teórica é uma estratégia de definição gradual da amostra (FLICK, 2004), que provê uma orientação constante ao pesquisador para direcionar o processo de coleta, organização e interpretação dos dados com o objetivo de oferecer sustentação teórica até a saturação da amostra, como proposto por Glaser e Strauss:
          
A amostragem teórica é o processo de coleta de dados para a geração da teoria por meio da qual o analista coleta, codifica e analisa conjuntamente os dados, decidindo quais serão coletados a seguir e onde encontrá-los para fundamentar a teoria emergente. Esse processo é controlado pela teoria em formação (1967, p.45).

Nessa metodologia, postula-se que o pesquisador deve, inicialmente, deixar o seu conhecimento em ‘estado de suspensão’ para que a teoria possa emergir, ou seja, deve-se estar aberto ao novo e ao inesperado. Em geral, ele possui conhecimento teórico sobre o objeto que abordará, como os conceitos, as principais características da estrutura e dos processos, mas somente conhecerá a relevância dos conceitos em determinado contexto ao longo do processo de pesquisa (FLICK, 2004).

Os dados são coletados, codificados e analisados de forma sistemática e simultânea até a saturação teórica, ou seja, até que dados novos ou relevantes não sejam mais encontrados ou que comecem a se repetir. Para tal empreendimento, deve-se utilizar a “sensibilidade teórica”, compreendida como a destreza para olhar os dados com perspicácia e imaginação com o objetivo de verificar a relevância dos dados e discernir o que é ou não é pertinente ao estudo (STRAUSS; CORBIN, 1990).

            Um ponto básico da amostragem teórica diz respeito à seleção da amostra, cuja representatividade é garantida por sua relevância. Os critérios de seleção não se baseiam nas técnicas usuais como amostragem aleatória ou estratificação, mas pelos insights que se acredita que uma pessoa possa trazer para o desenvolvimento da teoria. Nessa perspectiva, as questões “Quais grupos ou subgrupos de populações, eventos, atividades, devemos interpelar? E com quais objetivos?” (STRAUSS, 1987, p.38) são decisões cruciais para a Teoria Fundamentada.

Muitas técnicas de coleta de dados podem ser utilizadas na Teoria Fundamentada, como a observação participante, entrevistas, discursos, cartas, biografias, autobiografias, pesquisa na biblioteca. Independente do método utilizado para coletar os dados, sublinha-se que a abordagem se concentra firmemente na interpretação dos dados. Após a estratégia para a coleta de dados, que acontece de forma gradual, estes são utilizados para os procedimentos de análise, descritos a seguir.

            Codificação

            Para Flick (2004), a interpretação de dados é o cerne da pesquisa qualitativa, cuja função é desenvolver a teoria, servindo de decisão sobre quais dados serão trabalhados.  A codificação refere-se aos procedimentos utilizados para rotular e analisar os dados coletados. Pode ser definida, de acordo com Strauss e Glaser, como “o termo geral para conceitualização de dados; assim, os códigos abrangem questões nascentes e oferecem respostas provisórias sobre categorias e seus relacionamentos” (1987, p.21).
                      
            A codificação dos dados envolve comparações constantes entre fenômenos, casos e conceitos, as quais conduzem ao desenvolvimento de teorias por meio da abstração e relações entre os elementos (Flick, 2004). Os objetivos dos procedimentos de codificação, enumerados por Strauss e Corbin, (1990) são:

● construir/gerar uma teoria ao invés de verificá-la;
● prover aos pesquisadores ferramentas analíticas “rigorosas” para se fazer uma pesquisa de qualidade;
● auxiliar os pesquisadores a lidarem com os preconceitos e concepções prévias ou que podem ser desenvolvidos durante o processo de pesquisa;
● prover uma fundamentação densa e desenvolver a sensibilidade e integração necessárias a geração de uma teoria exploratória, rica e rigorosa, que se aproxime da realidade que representa.

            Os procedimentos de codificação são denominados de codificação aberta, codificação axial e codificação seletiva que devem ser entendidos como formas diferentes de tratar os dados, muito mais do que etapas firmemente demarcadas, claramente distintas e temporalmente separadas (GLASER; STRAUSS, 1967).

            Codificação aberta

      Strauss e Corbin (1990) conceituam codificação aberta como o processo analítico pelos quais os conceitos são identificados e desenvolvidos em relação as suas propriedades[4] e dimensões[5]. Esse processo envolve as atividades de quebrar, examinar, comparar, conceituar e categorizar os dados que serão sumarizados em uma lista de códigos[6] e categorias[7] originadas dos rótulos atribuídos livremente a cada frase, linha ou parágrafo.

Na codificação aberta, a comparação e os questionamentos são dois procedimentos analíticos básicos que propiciam precisão e especificidade, características fundamentais aos conceitos. Para rotular os dados, utilizam-se as perguntas e comparações em busca de similaridade e diferenças entre cada incidente, evento ou situação: “O que é isto? O que representa?” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.63). Os eventos e incidentes semelhantes são comparados e agrupados para formar categorias.

Um erro comum entre os pesquisadores iniciantes é resumir os dados e não  conceituá-los. Isto é, eles tendem a repetir a essência da frase ou sentença. A questão pode ser exemplificada com a situação sugerida por Strauss e Corbin (1990, p.64):

O mâitre desceu e eles (o mâitre e a funcionária) conversaram por alguns momentos e procuraram por mesas vazias no restaurante, avaliando em que ponto da refeição os clientes sentados pareciam estar: os dois estavam conferindo.

 No caso, ao invés de usar o rótulo “Conferência” para descrever a observação, pesquisadores iniciantes usam termos como: “Ela conversou com o mâitre” ou “Observaram o salão do restaurante”.  No entanto, o termo conferência é mais efetivo para  “representar o conteúdo de uma categoria de forma marcante... e auxiliar na lembrança da referência da categoria” (FLICK, 2004, p.190).

No decorrer da pesquisa, segundo o relato de Strauss e Corbin (1990), é comum a obtenção de centenas de códigos que, em decorrência, devem ser novamente categorizados e reunidos em torno dos fenômenos relevantes descobertos nos dados. Nesse caso, porém, os conceitos assumem um caráter mais abstrato do que aqueles agrupados sob eles. As categorias têm força conceitual porque integram-se a elas  outros conjuntos de conceitos e subcategorias. E para que essas categorias possam ser desenvolvidas com mais precisão, suas propriedades são classificadas e dimensionadas ao longo de um continuum. Toma-se, por exemplo, a categoria cor, cujas propriedades incluem tonalidade, intensidade e nuance que podem ser dimensionadas, isto é, as categorias podem variar ao longo dos continua. Assim, a cor pode variar de intensidade maior para menor, de uma nuance mais clara para outra mais escura.

A aplicação da codificação aberta pode ser realizada pela análise linha a linha, frase a frase, parágrafo a parágrafo ou de documentos inteiros, dependendo da questão e intenção da pesquisa, do estágio da pesquisa ou estilo do pesquisador. O produto dessa fase é uma lista de códigos e categorias que deve ser complementada pelas notas em código (um tipo de memorando) criadas para explicar e definir o conteúdo dos códigos e categorias (STRAUSS; CORBIN, 1990).
As concepções prévias, bem como os preconceitos, experiências ou padrões de pensamentos dos pesquisadores, acabam por interferir na análise dos dados, dificultando, às vezes, uma interpretação mais isenta. Para minimizar o problema, Strauss e Corbin (1990) sugerem que os pesquisadores devem desenvolver a “sensibilidade teórica”, ou seja, a “habilidade de ver com profundidade analítica o que existe” (p.76), utilizando técnicas como:
● encaminhar os pensamentos para além dos limites da literatura técnica e da experiência pessoal;
● evitar usar formas padronizadas de pensamento sobre o fenômeno;
● estimular o processo indutivo;
● evitar as suposições prévias sobre os dados;
● permitir que as concepções dos sujeitos da pesquisa sejam esclarecidas ou desmascaradas;
● ouvir o que as pessoas dizem e quais significados podem, possivelmente, ser retirados das falas;
● evitar precipitar os conhecimentos prévios quando examinar os dados;
● forçar as perguntas sobre as questões e prover respostas provisórias;
● permitir a realização de rótulos férteis mesmo que provisoriamente;
● explorar ou esclarecer os possíveis significados dos conceitos;
● descobrir as propriedades e dimensões dos dados.
Outras técnicas como o uso do questionamento, análise de palavra, frase ou sentença, os procedimentos “flip-flop”[8] podem auxiliar a desvendar mais apuradamente as dimensões e conteúdos de uma categoria. Os autores ressaltam que não sabem exatamente quais são os valores das técnicas para os pesquisadores novatos ou mais experientes, mas que elas estão mais vinculadas à prática do que a criatividade e imaginação.
Codificação axial
O objetivo dessa etapa consiste em aprimorar e diferenciar as categorias resultantes da codificação aberta. O pesquisador seleciona as categorias mais relevantes e as coloca como fenômeno central para estabelecer as relações entre as categorias e subcategorias:
A codificação axial é um conjunto de procedimentos após a codificação aberta em que os dados são colocados em uma nova forma, por meio das relações entre as categorias. Isto é realizado com o paradigma de codificação que envolve condições[9], contexto[10], estratégias de ação/interação[11] e suas conseqüências[12] (STRAUSS, CORBIN, 1990, p. 96).
            Os autores advertem que a codificação aberta e axial são procedimentos analíticos distintos que podem ser mais bem compreendidos ao se considerarem quatro pontos importantes:

(1)   na codificação aberta, muitas categorias são identificadas. Algumas dessas referem-se a fenômenos específicos como condições, estratégias ou conseqüências; (2) na codificação aberta, essas categorias não estão, necessariamente, agrupadas sob fenômenos específicos que denotam condição, estratégia ou conseqüência. O pesquisador é quem deve identificá-las como tais, como exemplificado na frase: “Quando eu tenho (condição) dor de artrite (fenômeno), eu tomo aspirina (estratégia). Após um tempo, eu me sinto melhor (conseqüência)”; (3) cada categoria ou subcategoria possui propriedades específicas que podem ser dimensionadas, oferecendo outras especificações para as categorias. Por exemplo, a subcategoria “alívio da dor” (conseqüência) tem propriedades gerais como duração, grau, potencial para causar efeitos colaterais. O fenômeno “dor de artrite” possui propriedades como grau, duração e intensidade. Assim, as propriedades são específicas para cada caso, isto é, para cada fenômeno poderá ser dado uma localização dimensional específica; (4) na codificação axial, as subcategorias são descritas por meio do paradigma de codificação.
            O paradigma da codificação torna possível a sistematização dos dados por meio das relações entre as categorias e subcategorias com a utilização dos termos:
A                     Condições causais
                        B                     Fenômeno
                        C                     Contexto
                        D                     Condições intermediárias
                        E                     Estratégias de ação/interação
                        F                      Conseqüências
Fonte: Strauss e Corbin, 1990, p.99.
Flick (2004) avalia o paradigma da codificação como um modelo ao mesmo tempo simples e genérico, mas com potencial para esclarecer as relações entre um fenômeno em que o pesquisador se move continuamente entre o pensamento indutivo[1] e o dedutivo[2].
            Codificação seletiva
Na terceira e última etapa da codificação, o objetivo é integrar e refinar categorias em um nível mais abstrato. A tarefa é elaborar a categoria essencial, em torno da qual as outras categorias desenvolvidas possam ser agrupadas e pelas quais são integradas: “O fenômeno central é o coração do processo de integração” (STRAUSS; CORBIN,1990, p.124)
Para tanto, o primeiro passo envolve a formulação ou elaboração da “história do caso” com o objetivo de oferecer um breve panorama geral descritivo. Depois, faz-se necessário mover da descrição para a conceitualização por meio da elaboração da “linha da história”. Assim, tanto na codificação aberta quanto na axial, os fenômenos foram nomeados para que nessa fase o pesquisador possa olhar a lista de categorias e avaliar qual delas é abstrata o suficiente para englobar todas as outras descritas na história. O resultado deve ser uma categoria central juntamente com as categorias relacionadas a ela.  Portanto, o pesquisador deverá escolher entre dois ou mais fenômenos igualmente salientes (STRAUSS; CORBIN,1990, p.120-121)
A categoria central é essencial para a integração de todos os elementos da teoria, pois é a partir dela que as propriedades e dimensões devem ser identificadas. Após essa etapa, novamente deve-se empregar o paradigma – condições, contexto, estratégias e conseqüências – nas relações entre as categorias (STRAUSS; CORBIN, 1990).
Strauss e Corbin (1990) esclarecem que a categoria central não precisa ser necessariamente um processo psicossocial básico. O critério para escolha da categoria central relaciona-se ao ajuste e descrição do fenômeno, de tal forma que esse seja suficientemente amplo para englobar e relacionar as categorias subsidiárias às outras categorias como na metáfora: a categoria central deve ser o sol se relacionando sistematicamente com os planetas.
Em suma, observa-se que as várias fases da Teoria Fundamentada ocorrem simultaneamente, permitindo ao pesquisador fazer as modificações necessárias no transcorrer do processo. O procedimento de retroalimentação constante com os indivíduos da pesquisa, possibilita entender melhor o fenômeno estudado. Assim, à medida que os dados são coletados e analisados, surgem outros novos que direcionarão as novas coletas, produzindo categorias mais refinadas até a saturação.
Para auxiliar o pesquisador nas diversas fases da pesquisa, os autores propõem instrumentos e procedimentos para analisar os dados.
             Instrumentos analíticos da Teoria Fundamentada
As duas fases vinculadas estreitamente com a construção da teoria foram descritas nos tópicos anteriores. Para melhor compreensão da metodologia, antes da descrição da terceira fase, a redação da teoria, faz-se necessário apresentar algumas ferramentas e procedimentos essenciais para a amostragem e codificação.
            Matriz condicional
            Devido a compreensão da Teoria Fundamentada como sistema transacional, método de análise que permite examinar a natureza interativa dos eventos, Strauss e Corbin (1990) sugerem a utilização da matriz condicional como instrumento analítico que permite:
            ● auxiliar o pesquisador a ser teoricamente sensível para alcançar as condições em que se insere o fenômeno estudado;
            ● habilitar o pesquisador a ser teoricamente sensível para perceber as conseqüências potenciais que resultam da ação/interação;
        ● assessorar o pesquisador a relatar sistematicamente condições, ações/interações e as conseqüências para o fenômeno.
            A matriz condicional pode ser representada por um conjunto de círculos inseridos em outros. Cada círculo corresponde a um nível de diferentes aspectos do mundo em torno dos sujeitos e do pesquisador: “o pesquisador precisa preencher as características condicionais específicas para cada nível pertencente à área escolhida da investigação” (p.162). Os itens a serem incluídos dependem do tipo e do assunto da pesquisa e podem surgir da literatura ou da experiência do pesquisador.
            As características gerais dos níveis da matriz incluem desde os contextos mais amplos situados nos círculos mais externos até a ação pertencente ao fenômeno estudado no centro da matriz, como mostra o modelo:
            ● Nível Internacional: política internacional, normas governamentais, cultura, valores, filosofia, economia, história, problemas internacionais e questões ambientais.
            ● Nível nacional: política nacional, normas governamentais, cultura, história, valores, economia, problemas e questões.
            ● Nível comunitário: os itens citados acima no contexto que possui características demográficas próprias.
            ● Nível organizacional e institucional: características peculiares do local estudado.
            ● Nível sub-organizacional e sub-institucional: características particulares de um sub-local dentro de um local mais amplo onde o estudo acontecerá.
            ● Nível coletivo, grupo e individual: biografias, filosofias, conhecimento e experiências das pessoas e familiares quanto o interesse do grupo (interesses especiais, profissionais e científicos).
            ● Nível interacional: a interação refere-se às atividades que as pessoas fazem juntas ou relacionadas uma com a outra e a ação, conversas e processos de pensamento que acompanham o fazer dessas coisas no âmbito do fenômeno estudado. A interação é realizada por meio de processos como negociação, ensino, discussão, debate e auto-reflexão.
            ● Nível da ação: refere-se à dimensão estratégica e de rotina. Representa a forma individual da ação, expressão da pessoa ou de outra interação realizada para gerenciar e responder ao fenômeno.
A matriz condicional é operacionalizada pela localização da trajetória condicional que envolve o acompanhamento dos eventos ou incidentes através dos vários níveis da matriz para determinar como se relacionam. Os autores exemplificam que não é suficiente fazer uma afirmação do tipo “a tecnologia tem despersonalizado os cuidados médicos”, mas consideram necessário para ser significativo:
mostrar especificamente como, quando, onde, com quais conseqüências, a tecnologia (e qual tecnologia) tem despersonalizado os cuidados médicos e as estratégias para ser usadas contra a despersonalização (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.167).
            Para ilustrar a importância de se traçar uma trajetória condicional será apresentado um exemplo resumido oferecido pelos autores sobre um incidente ocorrido em um hospital: uma médica ao fazer a ronda na unidade médica solicitou a enfermeira que a acompanhava luvas esterilizadas tamanho 6 para checar a colostomia de um paciente, recusando as luvas de tamanhos diferentes que tinham sido oferecidas. A enfermeira chefe ao tomar conhecimento da necessidade da médica, após várias estratégias como contato com a central de fornecimentos e outras unidades para localização do recurso, conseguiu obter as luvas em um tempo aproximado de 30 minutos.
O fenômeno estudado era o fluxo de trabalho na unidade médica. Pela análise do incidente foi possível observar que: (a) o trabalho da enfermeira chefe foi interrompido pela falta de um recurso (luvas tamanho 6) - nível da ação; (b) a enfermeira chefe tentou sem sucesso persuadir a médica a aceitar outro par de luvas para depois tentar localizar o recurso em outros departamentos – nível interacional; (c) outra médica poderia ter aceitado luvas de outro tamanho, mas a médica em questão recusou porque suas mãos eram pequenas – nível individual; (d) havia pequena quantidade de luvas esterilizadas na central de fornecimento do hospital, porque elas estavam sendo mais utilizadas devido a uma campanha nacional sobre controle de infecções – nível sub-organizacional; (e) para assegurar que cada unidade tenha uma quantidade adequada de luvas para cada tipo de trabalho (cirurgia, procedimentos de rotina), o hospital mantém as luvas trancadas para serem entregues de acordo com a necessidade – nível organizacional; (f) o suprimento de luvas também era limitado na comunidade, pois muitos hospitais e profissionais aderiram a campanha de controle de infecção e estavam usando luvas nos procedimentos médicos em que havia contato com os pacientes. O fato afetou a produção e distribuição de luvas na comunidade que não estava preparada para atender a demanda – nível comunitário; (g) a campanha de controle de infecção nacional surgiu para reduzir o grande número de contaminação de doenças, em especial, a AIDS pelos profissionais que não utilizam os recursos e procedimentos adequados – nível nacional.
Ao observar a dificuldade na obtenção da luva no hospital, traçou-se uma trajetória que perpassou vários níveis da matriz possibilitando uma compreensão mais apurada do fenômeno. Ressalta-se que não é qualquer incidente e evento que necessita de ser investigado mais profundamente, mas aqueles que parecem ser relevantes ao assunto pesquisado.
            Memorandos e diagramas:
Os memorandos e diagramas são registros das análises dos pesquisadores, representando, por meio da forma escrita, o pensamento abstrato sobre os dados e as representações gráficas ou imagem visual das relações entre os conceitos que devem ser construídos para o desenvolvimento da teoria. Podem assumir diferentes formas de acordo com os objetivos:
(1) Notas de códigos: memorandos que contém o produto atual de três tipos de codificação, tais como, rótulos conceituais, características do paradigma e indicação de processo. (2) Notas Teóricas: memorandos resumidos e teoricamente sensibilizantes que contém o produto do pensamento dedutivo e indutivo sobre as propriedades, dimensões, relações, variações, processos e matriz condicional das categorias relevantes e potencialmente relevantes. (3) Notas operacionais: memorandos que contém diretrizes para o próprio pesquisador e membros da equipe relativo a amostragem, questões, possíveis e comparações que possibilitam o desenvolvimento da pesquisa. (4) Diagramas lógicos: representação visual do pensamento analítico que mostram a evolução das relações lógicas entre categorias e subcategorias em termos de características de paradigma.(5) Diagramas integrados: representações visuais do pensamento analítico que são usados para experimentar e mostrar encadeamentos conceituais cujos formatos não estão vinculados ao paradigma, mas deixado aberto à imaginação. (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.197).
      À medida que a pesquisa transcorre, os memorandos e diagramas mostrarão mais profundidade e complexidade do pensamento, refletindo a evolução teórica.  Por fim, de posse dos instrumentos e com os dados analisados, a terceira e última fase é a redação da teoria.
            Redação da teoria
            Ao longo do processo da pesquisa, o pesquisador construiu vários instrumentos analíticos como memorandos, diagramas, registro das relações entre a categoria central e as subcategorias e uma história analítica global que serão o alicerce para a redação da teoria. Mesmo que o pesquisador não tenha habilidades especiais para a escrita, aprendeu procedimentos analíticos essenciais que o auxiliará nas primeiras fases do texto e que poderá ser reescrito no final do processo. A questão principal “é como traduzir esse material analítico de forma clara e efetiva para que outros possam se beneficiar ao utilizá-lo?” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.225). Para tanto, é preciso que o pesquisador tenha construído:
                                      (1) Uma história analítica clara. (2) A redação em nível conceitual, com a descrição em posição secundária. (3) A especificação clara das relações entre as categorias, também com o esclarecimento dos níveis de conceitualização. (4) A especificação das variações e suas condições, conseqüências, e o que mais forem relevantes... (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.229).
            A relevância da redação na pesquisa qualitativa relaciona-se com a apresentação das descobertas do projeto, como base para avaliação dos procedimentos, resultados e  condições gerais da pesquisa como um todo (FLICK, 2004). Strauss e Corbin (1990) sugerem como apresentar a pesquisa na forma verbal e escrita (monografias e artigos), porém nesse trabalho será abordada brevemente somente a redação da monografia (dissertações e teses).
Em geral, ao construir uma tese baseada na Teoria Fundamentada deve-se ter em vista dois procedimentos: desenvolvimento de uma história analítica clara por meio dos diagramas e memorandos e o delineamento de um esquema principal provisório que incorporará os componentes relevantes da história. Os esclarecimentos dos conceitos e das principais linhas de desenvolvimento auxiliam muito na construção de uma teoria concisa. Com o esquema geral delimitado, o texto tem condições de fluir mais facilmente, levando-se em conta que não se deve cair na armadilha de querer escrever o texto perfeito que nunca é terminado. Por fim, os autores sugerem que se leve em conta o público-alvo para a redação do texto (STRAUSS; CORBIN, 1990).
Após a redação da teoria, deve-se uma avaliação final da evolução da pesquisa de acordo com os padrões e procedimentos do método de pesquisa utilizado. Os autores sugerem critérios para avaliá-la pelo produto final que também podem ser utilizados pelas agências de fomentos ou outros pesquisadores que queiram julgar pesquisas que utilizaram a Teoria Fundamentada.
         Critérios para avaliação da Teoria Fundamentada
            A literatura científica mostra que a pesquisa pode ser julgada, primeiramente, pela validade, confiabilidade e credibilidade dos dados. Em segundo, pela adequação do processo de pesquisa pela qual a teoria é gerada, elaborada ou testada. E por fim, pela fundamentação empírica utilizada na pesquisa (STRAUSS; CORBIN, 1990).
            O pesquisador deve ter em mente que a pesquisa precisa ter informações necessárias que possibilitarão a compreensão dos leitores e, também, a avaliação da própria pesquisa: (1) o método e fundamentação de seleção da amostra; (2) descrição das principais categorias; (3) descrição dos principais eventos, incidentes e ações que indicaram algumas das categorias principais; (4) descrição de como as formulações teóricas conduziram a coleta de dados e a representatividade das categorias; (5) descrição das hipóteses pertinentes as relações entre as categorias e como foram formuladas e testadas; (6) descrição das hipóteses não provadas e as discrepâncias que as afetaram; (7) descrição de como e porque a categoria central foi selecionada e em que base as decisões analíticas foram tomadas (STRAUSS; CORBIN, p.253).
            Em relação à fundamentação empírica do estudo, Strauss e Corbin (1990) sugerem sete perguntas para avaliação: (1) os conceitos foram gerados?; (2) os conceitos apresentam relação sistemática?; (3) existem muitas relações conceituais e categorias bem desenvolvidas? Elas apresentam densidade conceitual?; (4) existem muitas variações na construção da teoria?; (5) foram observadas e explicadas as condições mais amplas que afetam o fenômeno estudado?; (6) o processo foi levado em consideração? e (7) até que ponto a teoria descoberta parece significante?
            Acrescentam ainda que os critérios para avaliação permitem que os pesquisadores possam ter diretrizes para avaliar a pesquisa, porém novas áreas de investigação podem precisar de adequação ou novos procedimentos para preencher as circunstâncias da pesquisa. Pesquisadores imaginativos, às vezes, podem não utilizar as diretrizes ‘autorizadas’ para os procedimentos. Mas, nesses casos incomuns, deve-se precisar como e porque os critérios não foram utilizados.
Outra questão que parece ser necessária para avaliar a adequação do método à pesquisa é saber quando usar a Teoria Fundamentada. Em linhas gerais, a metodologia parece favorecer as pesquisas de natureza exploratória em que: (1) deseja-se gerar uma teoria, mais do que verificar; (2) explicar um processo, ação ou interação; (3) quando é necessário um procedimento sistematizado passo a passo; (4) quando a pesquisa é orientada para os dados.
            Limitações do método
            Flick (2004) pondera que a principal limitação, grosso modo, relaciona-se com a dificuldade de diferenciação entre o método e a arte. A codificação aberta, por exemplo, pode ser aplicada a todos os trechos de um texto, gerando várias categorias que podem ser continuamente comparadas e elaboradas por meio da integração da amostragem teórica. Não existem critérios rígidos para a saturação, sendo uma decisão do pesquisador quanto à seleção e encerramento, fato este que pode resultar em muitos códigos e comparações.
            Alvesson e Sköldberg (2000) criticam a forte resistência às influências ‘intertextuais’ oriundas das teorias anteriores que, também, tendem a separar a teoria da prática.
Pela análise da metodologia, podem-se acrescentar algumas questões que suscitam cuidados em relação ao uso da metodologia, por exemplo: (1) as medidas tendem a ser mais subjetivas e, portanto, a maximização do viés do observador pode comprometer a validade do estudo; (2) os resultados, apesar de mostrarem tendências, não podem ser generalizados; (3) o trabalho é complexo, podendo aumentar os custos da pesquisa; (4) a análise dos dados subjetivos é, muitas vezes, percebida como problemática, trabalhosa, e o pesquisador deve ser muito experiente, a ponto de poder criticar a possibilidade de seu próprio viés de observação.
         Conclusão
            A Teoria Fundamentada é uma metodologia complexa e requer experiência do pesquisador. Em oposição às abordagens puramente quantitativas, possui desenho flexível, permitindo maior aprofundamento e detalhamento dos dados, assim como possibilidade de adequação ao objeto de estudo. Nessa abordagem, não existem regras metodológicas fixas e totalmente definidas, mas diretrizes, estratégias e abordagens para as diversas fases do processo.
Por meio dos procedimentos, os pesquisadores são forçados a questionar e rever criticamente as próprias interpretações durante a pesquisa. Um argumento importante da metodologia é que múltiplas perspectivas devem ser sistematicamente procuradas durante a investigação, possibilitando, com a utilização dos procedimentos, desenvolver uma teoria de grande densidade conceitual (refere-se à riqueza do desenvolvimento de conceitos e relações) e significativa. Os procedimentos incluem a comparação constante, a geração de questões relacionadas ao conceito, amostragem teórica, atividades sistemáticas de codificação, diretrizes propostas para obter “densidade” conceitual e integração conceitual. E mais recentemente, incluem também a conceitualização e diagramação de uma “matriz condicional” (STRAUSS; CORBIN, 1990), que oferece subsídio para especificar as condições e conseqüências, em qualquer nível da escala, e integrá-las dentro da teoria resultante.
          
Para finalizar, a despeito de todas as verdades ou descobertas que emergem das pesquisas, endossa-se a posição de Dewey (1938) ao afirmar que uma teoria não é uma formulação de algum aspecto descoberto de uma realidade preexistente. Teorias são interpretações produzidas de algum ponto de vista e adotadas ou averiguadas por pesquisadores.  Portanto, são falíveis, o que não significa, em absoluto, negar que elas possam ser julgadas sobre sua segurança ou provável utilidade, mas que são temporariamente limitadas. Isto é, são sempre provisórias e restringidas pelo tempo.
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 Nota: foram retirados imagens e figuras desse artigo. Ver original na obra.

[1] Indutivo: “desenvolve conceitos, categorias e relações a partir do texto” (FLICK, 2004, p.193).
[2] Dedutivo: “testa os conceitos, categorias e as relações em contraposição ao texto, especialmente os trechos ou casos que sejam diferentes daqueles a partir dos quais eles foram desenvolvidos” (FLICK, 2004, p.193).

[1] Fenômeno refere-se “a idéia central de um evento, acontecimento ou incidente, na qual, um conjunto de ações ou interações é  direcionada e gerenciada, ou na qual  um conjunto de ações é relatado” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.96)
[2] Termo cunhado por Blumer. Trata-se do “estudo dos significados subjetivos e das atribuições individuais do sentido” (FLICK, 2004, p.33).
[3] “Conceitos são rótulos atribuídos aos acontecimentos, eventos e outras instâncias do fenômeno” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.96).
[4] Propriedades: atributos ou características pertencentes a uma categoria (STRAUSS; CORBIN, 1990).
[5] dimensões - localização das propriedades ao longo de um continuum dados (STRAUSS; CORBIN, 1990).
[6] Códigos: Rótulos oriundos do processo de análise dos dados (STRAUSS; CORBIN, 1990).
[7] Categoria: compreende uma classificação de conceitos descoberta por meio da comparação entre os conceitos pertencentes a um fenômeno similar (STRAUSS; CORBIN, 1990).
[8] Técnica “Flip-flop”: a comparação entre os extremos de uma dimensão ou fenômenos provenientes de contextos completamente diferentes (STRAUSS; CORBIN, 1990).
[9] “Condições causais: eventos, incidentes, acontecimentos que orientam a ocorrência ou desenvolvimento de um fenômeno” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p. 96).
[10] Contexto: conjunto de propriedades pertencentes ao fenômeno, isto é, representa um conjunto de condições no qual as estratégias de ação/interação ocorrem (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.96).
[11] Ação/interação: “estratégias aconselhadas para gerenciar, lidar, executar e responder a um fenômeno sob um conjunto específico de condições percebidas” (STRAUSS;  CORBIN, 1990, p.97).
[12] Conseqüências: “são os resultados da ação e interação” (STRAUSS; CORBIN, 1990, p.97).

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